Tenho muitos amigos e conhecidos, de várias faixas etárias, de várias zonas do país, com as mais variadas profissões e ocupações. E quase todos eles me dizem o mesmo: “Epá, estes são os melhores anos (os da Universidade) da tua vida”. Os que por lá já passaram, vejo-os falar com saudade do tempo de estudante. Os que estão no mesmo pé que eu, sempre os vejo atarefadíssimos com trabalhos e aulas e estudo, mas sempre com um sorriso na cara. Os que estão agora a terminar o percurso sentem já as lágrimas da despedida. Os que agora começam, sentem-se entusiasmados com a nova etapa, tal como eu me senti.

Mas não sinto, de todo, que estes são os melhores anos da minha vida. Não consigo encontrar a mesma vivência durante estes tempos de estudante que grande parte dos meus amigos sente. E isso deixa-me sinceramente triste. Não conseguir perceber tudo o que isto me tem para oferecer, e, pior, não aproveitar.

Muitas razões contribuem para isso. A primeira, e talvez mais óbvia, é ter de dividir o tempo da faculdade e de estudo com o meu trabalho e as responsabilidades que isso acarreta. Isso, por sua vez, diminui automaticamente o tempo livre que tenho disponível para criar laços e experiências memoráveis.

Além disso, a FEUP é uma das maiores comunidades académicas do país. Centenas de alunos por cada ano de cada curso, em instalações com espaço para albergar campos de futebol. Isto faz com que as caras não sejam familiares, os espaços não sejam ocupados pelas mesmas pessoas. Não há habituação, não há espírito de comunidade.

A liberdade na escolha de horários também não facilita. Acabamos por conhecer muito mais gente do que a maioria das pessoas, mas é muito difícil para um grupo de pessoas conseguir ter sempre aulas juntos ao longo dos cinco anos de curso.

O método de ensino assenta muito no auto-desenvolvimento. Enquanto que alguns dos meus colegas ficam na FEUP a estudar e a trabalhar, porque são de longe e moram bem perto da faculdade, eu que sempre morei por aqui, vou para casa, estudo quase sempre sozinho ou com um ou dois amigos perto de casa. Tinha uma vida aqui antes da faculdade, tenho e terei, ao contrário de grande parte dos meus colegas que durante a semana apenas têm a vida académica com que se preocupar.

E por falar em vida académica, a praxe que tanto ouvimos falar antes de chegarmos ao ensino superior não foi capaz de me trazer aquilo que eu precisava. De todos os que por lá conheci, poucos guardo comigo, os outros são companheiros de viagem aos quais saúdo pela companhia. Deixei a capa negra de lado, mal tenho tempo para estudar, então para a usar…

E sem tempo não se desenvolvem laços. Grande parte dos colegas com quem saio moram longe o suficiente para não conseguirmos ir tomar um café ou sair ao fim de semana, mas perto o suficiente para não terem de morar cá.

Aqueles meus amigos que olham com alegria para a sua vida académica, que sentem que vivem os melhores anos da sua vida, passam o dia na faculdade, quer tenham aulas ou não. Eu, neste semestre, nem sequer lá ponho os pés às terças e quartas.

Tenho pena de não aproveitar isto tudo, por estes e tantos outros motivos. Sei que quando estiver lá longe, no fim do meu quinto ano, vou estar triste por terminar este capítulo, mas duvido sentir a dor do estudante que deixa de o ser. Sei que não é mal da FEUP, conheço muita gente que a vive como seria de esperar, é meu. Mas não há muito que eu possa fazer para o alterar. Resta-me esperar que os melhores anos da minha vida ainda estejam para vir.

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